ANÁLISE O Animal Cordial (2018): Um Ensaio Insalubre Sobre O Ódio Ao Feminino

O Animal Cordial, primeiro longa metragem da diretora brasileira Gabriela Amaral, e produzido pelo famoso produtor Rodrigo Teixeira, se consagra como um slasher visceral que difere dos gêneros que o cinema nacional costuma brincar. A história gira em torno de um restaurante gerido por Inácio, um chefe agressivo interpretado por Murilo Benício, e seus respectivos funcionários e clientes. Todo o enredo se passa numa única noite na qual ocorre um assalto suspeito no estabelecimento e os acontecimentos se desenrolam de modo caótico e desesperador.

Apesar de algumas falhas, O Animal Cordial se mostra como um excelente filme de suspense na medida em que entrega exatamente aquilo que se propõe: o inesperado. Mesmo sendo o longa pioneiro da diretora, Amaral mostra perfeito controle de sua obra e detém uma assinatura técnica indistinguível. A filmagem é fluida, com vários momentos de plano sequência, e instantes engenhosos nos quais a câmera subjetiva é muito bem utilizada. A diretora brinca com as diversas profundidades de campo em suas cenas de diálogo e descarta o campo e contracampo em sua maior parte do tempo. Assim, a decupagem foge do clássico e se estratifica como uma referência ao seu próprio senso estético e artístico.

O que mais me chama a atenção em O Animal Cordial e o foco principal dessa análise é como a história se define como um terror que gira em torno do feminino, em toda a sua completude. Sara, a garçonete protagonista, interpretada por Luciana Paes, é uma mulher frustrada que vive numa realidade inventiva na qual espera a realização de seu romance com uma versão de Inácio que não parece realmente existir. Em meio ao assalto e suas consequências, sua utopia se evoca da pior maneira possível.

O incômodo começa logo no início do filme, minutos antes do restaurante fechar, em razão da clientela peculiar que impede que os funcionários possam encerrar o expediente. São eles: um senhor solitário que come seu jantar sem pressa, interpretado por Ernani Moraes, e um casal rico e espalhafatoso, interpretado por Jiddu Pinheiro e Camila Morgado. A personagem de Camila é Veronica, uma mulher linda e elegante que desde o primeiro momento desperta sentimentos negativos por parte de Sara.

O assalto que vem a ocorrer momentos depois é desconfortável, em especial pela realização crua da objetificação de Veronica pelas figuras dos assaltantes. Ela sofre abuso sexual fronte a todos os outros presentes antes que as demais personagens reajam e a trama se desenrole para outros horizontes.

Nas cenas que se sucedem, Sara ajuda Veronica a ir ao banheiro amarrada e fica nítido que o desdém que a garçonete tem por ela é algo pessoal. Por fim, quando Veronica morre pelas mãos de Inácio, um estopim parece acontecer com a protagonista. Sara se apossa dos brincos caros e do batom de Veronica, agora morta e assim, não mais uma ameaça. Ao se utilizar desses objetos simbólicos da feminilidade e sensualidade da outra, Sara parece deixar que um alter ego tome conta: uma personalidade mais confiante, mais consciente de sua sexualidade e de sua própria força. A cena sangrenta de sexo icônica vem logo depois dessa epifania.

Logo, fica claro que o ódio que Sara detinha por Veronica vinha de uma inveja ácida e da possível ameaça que ela representava a sua figura, que parecia sumir em prol da presença hipnotizante da outra. Sua morte representa o renascimento da confiança de Sara e seu declínio para a total insanidade.

Deixando as personagens de Sara e Veronica de lado, é importante apresentar outra figura de destaque: Djair, o cozinheiro do restaurante, interpretado pelo brilhante Irandhir Santos. Djair é um homem sereno, confortável com sua própria homossexualidade e detentor de uma belíssima delicadeza em seu jeito de ser. Sua figura, mesmo sem motivos aparentes, desperta um incomodo absurdo em Inácio, seu chefe.

Com o desenrolar da trama, o espectador passa a entender que o desconforto de Inácio advém justamente do modo como Djair vive sua vida e ama sua própria pele. Todos os xingamentos, as acusações e ameaças dirigidas ao cozinheiro não são realmente fundamentadas em fatos, mas sim no desejo paranoico de Inácio de fazer o outro sofrer. Por isso, a cena em que ele corta o cabelo de Djair é tão simbólica e violenta. Enquanto o patrão fez todos os outros sofrerem uma violência física, a tortura de Djair é psicológica: ferir o cozinheiro onde ele mais machuca Inácio.

Assim, nota-se que os protagonistas Sara e Inácio ambos se movem contra figuras específicas por motivações extremamente profundas que remetem a um ódio enraizado por tais signos femininos. Porém, obviamente, a trama de Gabriela Amaral é muito mais complexa e adentra diversos outros temas como racismo, desigualdade social, violência e dramas psicológicos intensos.

Todas as personagens do filme têm grande profundidade emocional e nenhuma delas se mostra como um problema que poderia ser resolvido. No fim, O Animal Cordial é sobre problemáticas humanas que nunca serão realmente sanadas, e até onde o lado animalesco da sociedade pode vir à tona quando motivado. Apesar de todas as características estilísticas de um slasher, a diretora se arrisca a ir além e coloca em evidência as complexidades da carne em proveito do desenrolar de um drama existencialista.

Estudante de cinema, faço análise de filmes (alguns novos, outros nem tanto).

Estudante de cinema, faço análise de filmes (alguns novos, outros nem tanto).