ANÁLISE Promising Young Woman: A Quebra De Expectativa Numa Trama Fadada Ao Clichê

O filme Promising Young Woman, com o título de Bela Vingança em português, é obra da diretora britânica Emerald Fennell. Lançado em 2020, foi um dos tópicos mais falados da edição do Oscar de 2021 e levou a estatueta de Melhor Roteiro Original. A obra é polêmica por abordar temas como estupro, vingança e feminicídio de maneira pouco usual e, muitas vezes, causar desconforto no público espectador ao ponto de ser considerado, até mesmo, ofensivo. Essa é uma análise pessoal que busca dissecar os pontos principais da narrativa e o porquê dela se ascender como uma das melhores histórias contadas pelo cinema no último ano.

Promising Young Woman conta a história de Cassandra, interpretada por Carey Mullingan. Cassie é uma mulher próxima dos 30 anos, que vive com os pais e desistiu da faculdade de medicina anos atrás. De dia, trabalha numa cafeteria regida por Gail (Laverne Cox) porém, à noite, Cassie se despede de um cotidiano ordinário e adentra uma realidade soturna. Assumindo diferentes personas de estereótipos femininos a cada noite, ela interpreta o papel de mulher embriagada e inconsciente em bares da cidade, na busca por atrair homens predadores e dispostos a tirar vantagem da situação. Infelizmente, assim como na realidade, é muito fácil para Cassie ganhar a atenção do público masculino.

Apesar de o filme mostrar o que ocorre durante alguns dos encontros de Cassie com esses homens, é exposto ao público que a protagonista guarda uma lista de seus alvos e os classifica por cores diferentes, sem nunca revelar o que cada uma delas de fato significa. Sendo assim, não se sabe ao certo como Cassandra lida com cada um de seus oponentes individualmente.

Ao longo da obra, percebe-se que o comportamento da personagem se dá como uma forma sombria de lidar com o luto por sua melhor amiga, que foi abusada sexualmente por colegas de classe durante a faculdade de medicina e mais tarde acabou por se suicidar. Logo, fica claro que essa é a razão por trás da desistência da carreira médica e do modo perigoso como Cassandra se comporta.

Nesse meio tempo, é apresentada uma nova figura na trama, Ryan (Bo Burnham) que estudou com Cassie durante a graduação e admite sempre ter tido um interesse especial por ela. Ambos passam a desenvolver um relacionamento romântico em contrapartida à vida clandestina da protagonista.

Agora que a trama já foi apresentada, é preciso ressaltar que o grande trunfo de Bela Vingança está exatamente no modo como a diretora faz promessas ao público e nunca chega a cumpri-las da forma esperada. Durante toda a narrativa, o espectador encontra-se preso na espera de uma violência explícita, gráfica, literal. Desde a primeira cena do filme, Emerald provoca o público ao evocar uma atmosfera predatória para, enfim, deixar no ar o que foi ou não feito, o que foi real ou não. Porém, o que muitas vezes passa despercebido por aqueles que assistem é que essa tal violência é, sim, concedida de uma forma muito diferente: a agressividade de Promising Young Woman chega silenciosa, passiva quase ao ponto de você se questionar se ela está verdadeiramente ali.

Conforme a obra corre, um desconforto palpável passa a imergir até que se torne impossível de ser ignorado. Muitas das figuras masculinas que rodeiam Cassandra são construídas propositalmente para parecerem boas, e inofensivas. Mas o desdém em seus diálogos, os olhares sugestivos, a linguagem corporal e a clara inferiorização da figura feminina são deixados em evidência para aqueles que querem ver. Emerald Fennell não entrega um banho de sangue em seu filme, mas a violência que é sugerida através de suas personagens chega de modo muito mais poderoso.

O caso principal dessa exemplificação é Ryan. O filme é muito sagaz em ironizar a construção de uma falsa comédia romântica entre ele e Cassie. O suposto cavalheiro, a exceção a regra. Os dois tem cenas cheias de química, com direito a uma trilha sonora pop e deliciosamente clichê, apenas para serem destruídos em questão de segundos. Porque Ryan não é a exceção. E nunca foi. De fato, Cassie descobre que ele estava envolvido na noite do estupro de sua melhor amiga.

Assim, conforme Bela Vingança brinca com a acidez de um romance fadado a dar errado, a obra também subverte o sub gênero do terror que conhecemos por “rape and revenge”, no qual as protagonistas são abusadas sexualmente e em seguida matam seus agressores. Tudo isso é feito ao som de trilhas musicais populares, cenários e figurinos extremamente vivos e uma atmosfera cênica adocicada que contrasta com tudo que o filme se propõe.

Uma das grandes polêmicas da obra é o fato de protagonista muitas vezes sugerir situações de perigo para as mulheres a sua volta. Isso acontece com a filha da reitora da faculdade, e com sua ex colega de turma. Entretanto, o que o público muitas vezes parece se esquecer é que Cassie não é uma heroína, nem nunca foi apresentada como tal. Sua motivação é e sempre foi unicamente a vingança, e não a justiça. Cassandra Thomas é uma personagem calculista, e se mostra disposta a arriscar tudo numa aposta por retaliação irreversível.

Por fim, a última grande controvérsia causada por Bela Vingança é seu gran finale. O último ato corre desesperador quando Cassie finalmente fica face a face com o agressor de sua melhor amiga, e a protagonista morre num embate realista, porém inegavelmente angustiante. A trama termina com sua vingança póstuma.

Nesse momento, percebe-se que o filme optou por mais uma vez brincar com a expectativa do público e, principalmente, por entregar um último momento de esperança, ainda que a personagem principal não estivesse mais ali. Cassandra confiou num homem para que os criminosos fossem pegos, e por essa razão muitos colocam a obra como incoerente. Contudo, pode-se interpretar esse final como uma conclusão agridoce de que de Cassandra Thomas conseguiu o que queria, de um jeito ou de outro.

Estudante de cinema, faço análise de filmes (alguns novos, outros nem tanto).

Estudante de cinema, faço análise de filmes (alguns novos, outros nem tanto).