“Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio”: Uma tentativa falha de reinvenção do terror contemporâneo

O terceiro filme da sequência Invocação do Mal foi lançado nessa primeira semana de junho de 2021. Sua recepção foi turbulenta desde o primeiro trailer até a verdadeira estreia, ao demonstrar uma mudança em seu formato costumeiro. A saga de filmes de terror, iniciada em 2013, trazia consigo a temática de casas mal assombradas e exorcismo. Apesar de tais tópicos serem extremamente comuns no gênero de horror, Invocação do Mal veio como um sopro de ar fresco numa década pós-slasher e sadismo, marcada por filmes como Jogos Mortais. Logo, as referências clássicas de fantasmas e demônios voltaram nessa série com uma direção bem feita de James Wan (que, coincidentemente, é o diretor de Jogos Mortais) e atuações notáveis de Patrick Wilson e Vera Farmiga.

A Ordem do Demônio, apesar de produzida por Wan, é deixada nas mãos do diretor Michael Chaves, conhecido por seus trabalhos como A Maldição da Chorona e o curta The Maiden. A assinatura artística dos dois é notavelmente divergente, e o glamour da tradicionalidade de Wan dá lugar para uma ousadia mais artística de Chaves. Ademais, o filme deixa o antigo modelo para trás e traz agora uma nova trama: o casal Warren deve provar a inocência de um jovem prestes a ser condenado a pena de morte, alegando sua inocência em razão de uma possessão.

O filme começa muito bem, contornando todos os clichês premeditados pelos filmes ditos pós terror e abrindo mão de seus maneirismos originais. Fugindo da abordagem do silencio e do terror psicológico, que se tornaram comuns em filmes como A Bruxa e Hereditário, a obra opta pelo caminho do caos. Tanto o exorcismo ocorrido nas cenas iniciais, como o assassinato de Bruno que segue momentos depois (e ouso dizer, um dos destaques do filme) são barulhentos, desorientadores e extremamente revoltos. Não há mais a quietude da expectativa e os sustos são, em sua maioria, jump scares clássicos.

Um dos fatores da obra que tinha o potencial de ter sido brilhante foi o modo de reconstrução dos assassinatos através da conexão psíquica de Lorraine. Os momentos em que o presente misturava se ao passado e a protagonista revivia esses instantes trouxeram ao filme uma nova cara e a cena da floresta foi, de longe, um dos melhores momentos desse longa-metragem.

Porém, apesar de tais qualidades, o filme se estagna em certo ponto. Há várias cenas desnecessárias como o embate entre Ed e um homem enorme no necrotério, e sua reaparição na casa dos Warren momentos mais tarde. O ritmo pré-estabelecido no início é facilmente quebrado em prol de sequências não essenciais a trama do filme.

Além disso, a vilã do filme é outro diferencial, pois é uma mulher viva e de carne e osso, praticante de bruxaria e ocultismos satânicos. É interessante que, pela primeira vez, o antagonismo venha de alguém real e não apenas de mais um demônio. Porém, a resolução da trama é um pouco cômica ao que Lorraine precisa se envolver num combate corpo a corpo contra a bruxa, levando a melhor com uma pedrada na cabeça. As cenas finais do filme também deixam a desejar, conduzidas por uma trilha sonora melosa e um falso final feliz, mesmo que várias pessoas tenham sido mortas ao longo do filme, aparentando certa falta de tato.

Porém, apesar de tudo, o filme não é desprovido de qualidade, como dizem. Há cenas interessantes como a de Lorraine enfeitiçada, tentando fugir e acabando por perseguir a si mesma, o quase suicídio de Arne na prisão e a destruição do altar da bruxa. É triste notar que o filme tinha o potencial de fugir não só de seus próprios clichês, mas de traços adotados pelo terror contemporâneo e criar algo novo e inegavelmente agradável, através da construção do terror por meio de flashbacks e da mescla entre os elementos sobrenaturais e vilões de carne e osso, tudo isso em meio a cenas de violência caóticas e estrondosas.

O filme foi de uma ousadia válida, que, infelizmente, não conseguiu atingir a grandiosidade de sua proposta. Ainda assim, é uma trama divertida para aqueles que gostam do gênero e que, com certeza, é ainda melhor quando assistido nas telas de cinema.

Estudante de cinema, faço análise de filmes (alguns novos, outros nem tanto).

Estudante de cinema, faço análise de filmes (alguns novos, outros nem tanto).