LONG WEEKEND - O CONFLITO DESIGUAL ENTRE HOMEM E NATUREZA

Long Weekend, com o título nacional de Um Longo Final de Semana, é um filme de terror australiano de 1978. Dirigido por Colin Eggleston, o longa é quase desconhecido fora do meio do horror e se atém de uma abordagem psicológica interessante: o embate entre o homem e a natureza.

A obra narra a história de um jovem casal que beira ao divórcio, e planeja uma viagem a praia numa última tentativa de salvar o matrimônio. Peter, interpretado por John Heargraves e Marcia, interpretada por Briony Behets, deixam claro desde a primeira interação que um desprezo amargo já se instaurou no casamento e dificilmente poderia ser revertido. Para ele, ela se demonstra sempre desequilibrada e mesquinha, enquanto para ela, o marido não é nada além de um estranho com uma óbvia desconsideração por suas vontades.

O evidente conflito entre o casal faz com que, aos olhos das personagens, o ambiente a sua volta se torne insignificante e suas ações ao longo do filme fomentam uma reação da parcela da natureza a que invadem. Desde o início da viagem, quando Peter joga um cigarro aceso na mata da estrada e atropela um canguru sem grandes remorsos, seu descaso é palpável. Porém, a contraposição que virão a receber é vagarosa e inegavelmente vingativa.

As primeiras cenas do filme destacam-se como montagens paralelas entre as personagens, e filmagens aparentemente aleatórias de insetos, plantas e paisagens. Contudo, ao que o filme se desenvolve, passa-se a entender que a natureza é, de fato, a grande protagonista.

Construindo-se através de uma temporalidade perfeitamente linear, diálogos orgânicos e uma trilha sonora soturna, o filme aos poucos conta ao espectador as razões que explicam o futuro divórcio. Enquanto conhece-se mais sobre o casal, sua trivialidade e falta de cuidado com a natureza continuam a ser demonstradas por meio de cortes de árvores, animais marinhos baleados e formigas mortas por um inseticida. Eggleston é perspicaz em mesclar ações aparentemente corriqueiras, como é o caso das formigas, com outras mais chocantes, como Marcia quebrando um ovo de águia contra uma árvore e a visão do sangue escorrendo entre a casca quebradiça. O filme vagueia entre uma violência explícita e implícita, entre o escandalizado e o imaginado.

Descobre-se então traições e um aborto, razões pelos quais o casal não mais encontra diálogo ou conforto na intimidade. Entre cenas alternadas dos animais a espreita, e das personagens vagueando pela praia e pela mata, há a criação uma atmosfera de constante observação, elevando o público ao estado de alerta. As respostas da natureza chegam em ondas e crescem exponencialmente. Barulhos de choro ao longe, uma carne estragada sem explicações, um ataque incomum de uma águia, o disparo de uma flecha de uma besta que tinha sua trava de segurança ativada.

Dessa forma, ao que o filme avança nessa dança entre os remorsos do casal e as respostas vingativas da natureza, é inegável não se perguntar se tais contra-ataques do ecossistema não vão além de revidações às violações provocadas pelos protagonistas e se projetam quase como um castigo divino por seus “pecados”, em especial o aborto, que é mencionado inúmeras vezes nas discussões que se seguem.

Long Weekend é uma batalha torturante, e evidentemente desigual, de ações humanas inconvictas contra a grandiosidade da natureza, demonstrada em porções pequenas e por animais outrora considerados inofensivos. O suspense e a apreensão construídos ao longo da trama são bem executados, e mantido durante toda a sua duração. O último ato é coerente, cru e devastador.

Long Weekend atualmente se autentica como um excelente filme cult, optando pela abordagem do terror ecológico e projetando na natureza a contraposição às protagonistas. No fim, por mais que se torça para as personagens humanas, ainda se é capaz de sentir um senso de justiça conforme o meio ambiente contesta os crimes atestados contra ele. Um ótimo longa metragem, que mantém sua qualidade do início ao fim e entrega ao espectador um grande espetáculo de sutileza e barbaridade.

Estudante de cinema, faço análise de filmes (alguns novos, outros nem tanto).

Estudante de cinema, faço análise de filmes (alguns novos, outros nem tanto).